quarta-feira, setembro 07, 2011

Não é que me tenham perguntado, mas o «fomo-nos afastando» não me convence. Uma pessoa não se vai afastando. Uma pessoa afasta-se. E apercebe-se disso. Mesmo com as tarefas domésticas, e a profissão, e os filhos. Apercebe-se. E, se não faz nada para o evitar, é porque não quer. E a outra pessoa percebe-o também. E, se não faz nada para o tentar contrariar, é porque não quer. E, se por acaso, as pessoas não se dão conta de que se estão a afastar é porque sempre estiveram afastadas. É claro que ninguém é obrigado a fazer fretes, nem advogo o prolongamento da frustração. É apenas a formulação que não convence: «fomo-nos afastando», como se isso fosse algo maior do que as pessoas. Não é. Estas coisas terminam pelo mesmo motivo porque começaram: porque as pessoas querem. «Fomo-nos afastando» é uma desresponsabilização desprezível. Que ninguém se mantenha agarrado a uma relação que não o satisfaz. Mas que não se espere que uma relação funcione independentemente do que se faz por ela.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Ela escolhia candeeiros. Ele ficava a olhar para as gajas boas que passavam. Uma pessoa tem de se entreter com qualquer coisa.

sábado, agosto 27, 2011

Dos problemas de se dar ao outro o que gostaríamos que nos desse a nós: é raro ele estar interessado no que lhe demos; ele não nos devolve o que lhe demos; e, principalmente, fomos nós que lhe demos, não ele a nós.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Súbito, um sonho traz-me o meu primeiro amor. Passados anos, o que sinto é o mesmo. E isso é muito. E muito pouco.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Variação: isto não é um blogue; é um caixote do lixo.
Ou então foi o que te sobrou da catequese a impedir-te de faltar ao respeito a um padre.
Enquanto a memória dura.

O que devia ter dito então, e não disse. O que devia ter feito então, e não fiz. Que se metesse na puta da vida dele. Virar-lhe as costas e deixá-lo a falar sozinho. Ou equivalente. Não disse nem fiz nada disso. Por falta de capacidade de autodefesa, ou simplesmente pela curiosidade mórbida de ver até onde podem os outros ir quando começam a desfiar a parvoíce e se adentram pelas feridas alheias, como se não se soubesse já que, quando assim é, vão sempre longe de mais.
Até se ter activado a memória.
O que é que se pode dizer? Que estava a ser um bom dia.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Isto não é um blogue. É uma pessoa a escrever para si mesma, a tentar não cair.
Há situações que não se ultrapassam. Ou, pelo menos, que não se ultrapassam tão depressa como se querem as ultrapassagens. Mesmo que o queiramos. Como a memória do abandono em que nos sentimos enquanto a única pessoa que se conhece joga matraquilhos e, depois do choro, nos sentimos demasiado derrotados para travar novos conhecimentos. Percebe-se que a ultrapassagem não foi feita quando se afigura no horizonte a possibilidade de voltar a passar pelo mesmo, e tudo dói de medo, e se recorda as palavras que foram ditas depois. Contigo nunca mais. E apetece dizer se é o que queres vai, que eu fico aqui, só, por opção e não porque me deixaste onde eu não conhecia.
Então, há que perceber, essa vontade de morte o que é. O paradoxo. Ansiar pela morte como quem anseia por um amante. É disso que se trata, no fundo, não é? A questão é que, estando morto, não se dá pela chegada do amante esperado, pelo fervor do seu desejo ou pela sua pungente dor. O paradoxo. Querer a morte como se, por essa via, os outros se apercebessem, por fim, da tua importância para as vidas deles, do quanto merecías o amor que não te dedicavam e então sentissem a grande falta que lhes fazes. Querer a morte como se só ela te pudesse trazer o amor. E é o contrário. Não importa quanto sofrimento tenhas dentro, quanta mágoa te invada. Independentemente de toda a dor, é o contrário. A vontade de morte não assinala nunca a falta de amor dos outros por ti. Isso nunca poderá ser comprovado por essa via e vá-se lá saber, ao fim e ao cabo, que importância tem para a matéria. A vontade de morte, não importa quanto te doa o que te dói, a única coisa que assinala é que poderás estar muito perto de desistir dos outros, nunca que eles desistiram de ti. Por pior que te sintas.

terça-feira, agosto 09, 2011

Fábula

Não há inocência. Sobretudo, não há perdão quando quem é apresentado como inofensivo tem presas e garras mais afiadas do que os seres maiores de quem é suposto serem protegidos. Fincam dentes e garras, e em volta pensam que bonito, vejam como brincam, vejam, a graciosidade, a agilidade, oh, vejam como são já tão hábeis apesar da tenra idade, oh, vejam, venham ver. O deleite. Mas são cruéis as crias. E o objecto da brincadeira não tem menos direito a respirar alegre do que elas. E elas já encontraram um novo objecto para brincar. Apenas na cabeça dela a toada da frase se repete, como um sortilégio, uma maldição que amor nenhum no mundo tem força ou vontade de quebrar. A mágoa fica sempre um pouco mais em quem se lembra.

quarta-feira, julho 27, 2011

Disse-me que estou muito bem para quem passou pelo que passei. Pergunto-me o que teria eu a ganhar com a exibição do corpo decomposto. 2000$00 se passasse pela casa partida?

segunda-feira, julho 25, 2011

Ou: só escrevo para depois poder dormir.
Uma pessoa tende a tentar não ceder, resistir, continuar um pouco mais. As outras pessoas tendem a tentar que uma pessoa não ceda, que resista, que continue um pouco mais. Para não se mostrar fraca, para não desapontar os outros, por orgulho?, uma pessoa não cede, resiste, continua um pouco mais. Isto só pode fazer-te bem ou passando esta noite, amanhã estás melhor. Depois, se caso disso for, vai-se ter às urgências, nada de extraordinário, uma pessoa tenta não ceder, resiste, aguenta um pouco mais, e a oxitocina, não sei se sabes, é protocolo.
Sobretudo, é preciso não dar livre curso ao pensamento. Manter os olhos abertos, focar a luz da rua a entrar por entre as frestas dos estores, prestar atenção às sombras através do cortinado, escutar atentamente os carros quando passam e demais ruídos que se erguem da rua, deixar que a noite se povoe de objectos estranhos e avance, enquanto manténs os olhos e os ouvidos abertos. Sobretudo, é preciso não deixar livre curso ao pensamento. Que o sono, quando vier, te abata, veloz, sem o entretanto em que, liberto dos constrangimentos do corpo, o pensamento flui para onde tu nada podes. E, se te vires demasiado só dentro da batalha, levanta-te da cama, enxuga os olhos, e escreve.
Pergunta-te se tens escrito, porque os escritores, quando se tem uma vocação...
Apetece-te mandá-lo dar uma volta. Ou mesmo só uma ida. A tua vocação é perder. Escrever, apenas um dano colateral.

domingo, julho 24, 2011

Pura falta de jeito, talvez. Qualquer coisa que se está sempre a perder. Como se a vida de uma pessoa não fosse mais do que o tempo, os móveis, os electrodomésticos e os animais que sobram da vida dos outros. E, se calhar, não é.
Gostava que me ouvisses quando estou calada. Quando, depois das palavras e dos esforços, nenhuma palavra mais. Quando sentir no meu corpo e na minha cabeça é demasiado difícil para que alguma palavra resista, e cair nos teus braços durante sete dias seguidos é demasiado simples e demasiado impossível. E o que sobra dos nossos dias parece tão pouco para repousarmos. Gostava que me ouvisses quando estou calada, que viesses ao meu encontro quando estou calada, porque nessas alturas tudo em mim é demasiado difícil para sobreviver. Mas, sim, há que pôr em perspectiva. A tragédia no Corno de África é mais grave.

sexta-feira, julho 22, 2011

Que o que importa, não é o destino, mas a viagem. E quando tudo o que queres é um rio de frente para o qual te possas sentar? E talvez o vento a soprar no cabelo. Quando tudo o que queres é o silêncio de um rio e tudo o que se interpõe te impede de o alcançar? A luz a fintar-te os olhos e as pessoas a exigirem-te o esforço de as ignorares. Têm sido tantas as vezes em que tens cruzado com o Gonçalo M. Tavares nestas ruas, que ele também já te olha como se te conhecesse. Ficas a pensar que há muito que não lês um livro dele, e também isso te impede de chegar ao rio, quando já tens tanto a tomar-te o pensamento. Uma velha anda de mão estendida ao longo do passeio enquanto os outros comem gelados nas esplanadas. Há quem te dê um papel a publicitar qualquer coisa que deixas no próximo caixote do lixo. No interior da estação de metro, reparas noutra velha, tão bem cuidada está que é uma senhora idosa, que fala sozinha, hesita, procura orientar-se. As adolescentes exibem as pernas da moda, e é quase obsceno. Nas escadas para o cais do metro precisas de parar antes que os degraus voltem a mexer. Exausta, e o rio fica ainda demasiado longe. O caminho de volta é longo e demorado. As pessoas ficam tão feias vestidas de saldos e os trapos que compram nem têm nada a ver com o assunto. Querias o rio, mas agora o que te falta é a casa e fechar os olhos. E um rio dentro.
Decerto o corpo tem razões que a medicina desconhece. Como pode alguém chegar à vida sem ter onde dormir? And when you left I'd only began this lullabye.
O corpo que, por ser o meu e o teu, era outro: seria preciso dizer-te o corpo inteiro para que o entendesses e, ainda assim, talvez não bastasse. Ou só: o corpo, matéria que se decompõe.

quarta-feira, julho 20, 2011

Feitas as contas aos dias, o que sobra é pouco mais do que nada. Diz que lá fora há um mundo cheio do que só pela graça de existir nos põe como finos. Mas eu preciso que primeiro os meus filhos durmam em paz.

terça-feira, julho 19, 2011

Mas, repara: foi-se a ameaça do que te interrompesse o sono, te roubasse os planos, te impedisse as viagens.
Sim. Mas no lugar disso não há nada. Nem mesmo a liberdade que já não havia antes.
Dito de outro modo: a questão não é haver ou não alternativa para um dado medicamento; a questão é não haver alternativa para a dor, por mais que se queira encher o peito e cantar, e não haver qualquer lirismo nisso.

minha vida, meus mortos

Lembro-me das unhas dela, a cor das unhas dela, impecavelmente pintadas, dentro das luvas de látex, dentro de mim. Lembro-me dos olhos dela, que poderiam ser os meus olhos a serem os olhos dela, momentos antes de terminar o que não termina nunca. Depois, penso pelos frutos, conhecereis a árvore. E, depois, ainda os meus filhos são demasiado perfeitos para este mundo. E, depois, ainda claro, cada um pensa o que quer.

domingo, julho 17, 2011

Abençoados os que dormem quando os chamam. Give me more than one caress.

Não deixar que a música cesse, que algo de terrível pode vir. Não deixar que a música cesse, que a insónia é um bicho sedento cujas veias não devem ser percorridas em silêncio. Que o silêncio se torna grito e sofreguidão em tudo o que é carne, e o corpo assim menos sossega. Não deixar que a música cesse. Até que o corpo não seja mais do que animal vencido.

sábado, julho 16, 2011

Faz-se das tripas coração. Um movimento após o outro, o mais devagar possível, embora tentando não perder o ritmo e o rumo. Onde estou? Onde estás? É inevitável. Vais sempre um pouco mais depressa e eu, apetece deixar-te ir, sem arriscar o esforço de te acompanhar, sem ousar pedir que abrandes o passo. E, metáfora ou não, imediatamente vêem à mente o esforço de caminhadas anteriores e um sentimento de culpa por assim talvez ter determinado a perda. Mas misturo assuntos. Escrevo para mim só, não espero que ninguém mais entenda. Ergo paredes que me amparem, havendo necessidade. O que eu queria dizer é que, fazendo das tripas coração, não deve surpreender que depois mal funcione o organismo.
É cruel incentivar quem tem uma perna partida a dar um passeio pelo campo. É ainda mais cruel, quando se aponta a perna engessada e se diz que assim nos custa caminhar, olharem-nos como se se tratasse de uma simples recusa em participar do prazer do outro.
Cuidaram-me como uma planta, amaram-me como a uma planta. Água a tempo certo e o melhor sítio da casa para receber o sol. Mas eu não era uma planta.
O que é que se faz quando se começa a falar do que nos entristece a alguém que não se mostra minimamente interessado? Calamo-nos. (Que não esteja interessado na coisa em si, entende-se. Que não se mostre minimamente receptivo a que continuemos a falar e a aliviarmo-nos do assunto, já custa mais a engolir, embora também se entenda.)

quinta-feira, julho 14, 2011

Na verdade, ninguém pergunta. Pensas no corte e na cor das unhas, na maneira como esta blusa diz com aquelas calças, na leitura de um livro, nos quadros de Hieronymous Bosch. Estás porreira. Não há o que perguntar. Ninguém. E é melhor assim. Dispensa-se a oferta de consolo quando do que se precisa é do próprio consolo sem pré-requisito. Uma presença sossegada.
E então alguém pergunta como é possível, apesar do que, continuares a pensar no corte e na cor das unhas, na maneira como esta blusa diz com aquelas calças, na leitura de um livro ou nos quadros de Hieronymous Bosch, apesar do que, como é possível não estares de rastos. E tu respondes, ou não, sufocas na resposta só: não é. E, por dentro, partes(-te) a cantar.

terça-feira, julho 12, 2011

Ridículo o estoicismo auto-proclamado de algumas pessoas. Na sua boca, estão sempre de pé. Mais do que as árvores, porque até estas reconhecem a sujeição a elementos mais fortes. Algumas pessoas não. Na sua boca nunca falham. Nem em gestos, nem em palavras. Nunca. Não deixam coisas por fazer. Não faltam ao trabalho. Não ficam, mais do que isso, não podem ficar doentes. Ridículo. Ou não sabem elas que o sangue faz barulho? Que momentos há em que é mesmo preciso fechar todas as janelas, deixar de fora todos os sons, descer as pálpebras por um pouco? Ridículo. E, a ser verdade, duvido de que estejam vivas.

segunda-feira, julho 11, 2011

Disse-me que a vida era tão ingrata. E, surpresa minha, não me pareceu um lamento. Uma constatação, simples, como quem diz isto é verde, aquilo é azul, e sabe que nada pode fazer para o alterar. Não encontrei o que lhe dizer para além de pois é. Pois é, isto é verde, aquilo é azul. A vida é tão ingrata. A vida é tão qualquer adjectivo que lhe queiramos pôr dentro. E estará sempre bem.

domingo, julho 10, 2011

Devagar (mas sempre demasiado depressa), o corpo volta a ser teu. Sem as restrições que já tinhas decorado. Depressa (mas sempre demasiado devagar). Liberto, sem cuidados, breve até mais ágil, o corpo volta a ser teu. Difícil agora é perceber o que fazer com ele. Blood makes noise.
Quando me atendeu a chamada estava a chorar. Foi pouco o que consegui sentir. É triste. Ia à procura de consolo, não tinha propriamente consolo para lhe dar. O vazio. Queria falar-lhe das dores de cabeça, do cansaço permanente, de um certo mal-estar digestivo e, com isso, tentar aliviar pelo menos o que pudesse ser psicossomático. Ela estava a chorar. A lamentar-se. A pedir desculpa. E eu vi tudo o que estava por detrás daquilo e não consegui dar-lhe nada. Nem sequer consegui chorar com ela. Hei de chorar noutra altura, sozinha. Ou não. Chorar também cansa.

blood makes noise


Não adianta. Nada no mundo vai suspender-se ou acontecer mais devagar, apenas porque tu, pelo menos por momentos, assim o preferirias. Não acontece. As coisas sucedem-se num ritmo que não é o teu e que, sabes, não adianta esforçares-te por acompanhar. Até porque, antes de mais, é o próprio corpo que se recusa. A fadiga. Uma dor mais ou menos forte agora, outra mais tarde. A temperatura que vai subindo. Não adianta. Quando mais não seja, porque tens um corpo que não está preparado. Não adianta. Deixar que suceda o que tu não podes, e, ainda que pudesses, não sabes se quererias, abrandar. Deixá-los. Mais do que inevitável, é necessário que a alegria continue. E isso é bom. Apenas que não te empurrem para o que tu agora não consegues. E, se ainda houver quem, que te ajude a adormecer.

minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos

É verdade. Quando se passa uma segunda vez por uma situação lixada há muita coisa que já se conhece. É como rever um mau filme, sendo que não se é parte da audiência, mas sim do elenco. Não me parece que se possa dizer que é menos mau, antes, há como que uma adequação das expectativas ao que o conjunto tem para oferecer. Espera-se menos. Logo, o hiato entre o que espera e o que se obtém é menor. No entanto, isto não faz que a situação lixada pela qual se passa uma segunda vez seja menos lixada do que antes. Uma pessoa é que já está mais lixada. É diferente.

sábado, julho 09, 2011

Se te fazem uma pergunta, tens o direito de responder. Se alguém te mostra que se importa, tens o direito de o viver. Tens direito a toda a empatia e afecto que alguém tenha para ti. É simples.

Até podes pensar que foi o pânico de te ver a desmoronar frente à pergunta que o fez fazer a piada mais tonta quando tão pouco precisavas dela. Isso, até podes compreender. Mas não sabes se foi isso. Sabes que a piada teve o efeito imediato de ridicularizar a tua dor, e cortar o acesso a algo que te estava a ser oferecido e de que, de algum modo, precisavas.

E depois uma espécie de silêncio ostensivo e a retirada dos seus gestos de afecto. O castigo por teres apontado onde as palavras doeram? Ou pura e simplesmente o desnorte por te ter magoado com o que tinha talvez apenas a intenção de evitar que te magoasses mais? Não sabes. O silêncio não te ajuda a perceber. Será assim tão difícil dominarmos a arte da fala?

Tu até poderias entender. Que o que te magoou não tivera essa intenção. Que fora um gesto falhado. Mas não o sabes. Não te é dito. Não te é mostrado. E falta a coragem. E ficas só tu a tentar segurar o mundo. O teu. Jai guru deva om.
Nem de quem esteve presente e assistiu a tudo aquilo por que passaste podes esperar que saiba o que é o cansaço, o vazio e mesmo a dor que fica depois. Ainda que, na verdade, a perda não devesse ser considerada apenas tua, mas vossa. Não adianta. Não podes.

Assegurar o mínimo, talvez. Ainda que compreendendo que para o outro, por todos os motivos, tudo seja mais simples, e não esperar mais, porque já sabes. Mas assegurar o mínimo. Que piadas fáceis sobre o que te dói não são bem-vindas. Não precisam de chorar contigo, mas não esperem agora que te rias ou acompanhes o riso dos outros sobre o que te dói. Porque isso dói mais.

Cada um tem o que merece, tu sabes. E não duvidas que tenhas exactamente o que mereces. Mas, jai guru deva om, que não te abanem aí, onde tudo é tão frágil.

sexta-feira, julho 08, 2011

Jai Guru Deva Om

Que nada me estremeça. Que nada me apresse. Que nada me chame mais alto do que eu estou preparada para ouvir. Mais do que um desejo, uma declaração de intenções. Não permitir que.



Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
They slither while they pass, they slip away across the universe
Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my openmind,
Possessing and caressing me.

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

Images of broken light which dance before me like a million eyes,
That call me on and on across the universe,
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box they
Tumble blindly as they make their way
Across the universe

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

Sounds of laughter shades of earth are ringing
Through my open views inviting and inciting me
Limitless undying love which shines around me like a
Million suns, it calls me on and on
Across the universe

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

E então o silêncio, porque qualquer palavra será desencontro.

Então chorar, se as lágrimas caem, sem mais. Qualquer que seja o motivo aparente, esse será apenas o pretexto. Na verdade, choras porque és, e o que sentes não pode dissociar-se do que és. Nada do que possas dizer conseguirá explicar, fazer com que de alguma maneira a tua tristeza alcance o outro. Podes agarrar-lhe a mão enquanto o corpo permanece deitado a teu lado, mas é intransponível. Não poderás nunca fazer-lhe chegar a tua tristeza, porque o outro é o que é e não o que tu és. E então o silêncio, porque qualquer palavra será desencontro.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus...
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração...
E se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Eu tenho que subir aos céus
Sem cordas p'ra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar!
Se eu quiser falar com Deus!

O ponto de partida é sempre aquele onde estás.


Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

sexta-feira, maio 06, 2011

Avulsos #44

Às vezes parece que te perguntam como preferes que façam uma coisa só para não a fazerem dessa maneira. E teria sido tão mais simples dizer, como tantas de vezes, como quiseres, do what you gotta do.


[Ou: quando não queres saber, não precisas de perguntar.]

sábado, abril 02, 2011

Avulsos #43

Pode haver maior distância do que alguém rir-se do que nos dá vontade chorar?

domingo, março 20, 2011

Avulsos #42



Esta terra é o meu corpo
mutilado, onde os pássaros
não chegam em sossego,


e longe do ócio do sol
sobre as pedras, este corpo
decai distante da carne
demorada e morna das tardes,


mas, fechando os olhos,
é ainda um poço e pinheiros
ou um melro rasando as nêsperas
através das pálpebras e do sal.

quarta-feira, março 16, 2011

Diário #37 [not a second time]

Esperava por ti em todas as horas e, por isso, chegavas sempre um pouco cedo um pouco tarde, e em mim havia a excitação pela surpresa de te ver tão cedo e o desalento pelo tanto que tinhas demorado. Mas tu não o percebias. Ou era como se não o percebesses. E nunca te ocorreu que o tempo certo em que chegavas era eu que o criava.

Avulsos #41 [sossego]

Peace - Burial at Sea 1842
Joseph Mallord William Turner


Diz, era este o sossego
que querias, quando, de todas
as tormentas, era o meu
o único vento que acusavas?

domingo, março 13, 2011

Avulsos #40

Sempre que era obrigada a curvar-se e a procurar alguma coisa nas zonas mais baixas e recônditas do frigorífico soltava um gemido, mas nem sempre, diga-se, gemido esse que se assemelhava ao queixume de toda uma vida. Tinha um corpo demasiado são e elástico para sentir desconforto, e limitava-se a imitar Rey, a identificar-se com ele, a gemer o gemido dele, mas de uma forma tão irrepreensível e intensa que o desconforto passava a ser dela também.


Don DeLillo (2001), O Corpo Enquanto Arte, Lisboa. Relógio d'Água Editores, p. 9. Trad. Paulo Faria.

Avulsos #39

FLOR E CRONÓPIO

Um cronópio encontra uma flor solitária no meio do campo. Vai para arrancá-la,
mas pensa que é uma crueldade inútil
e põe-se de joelhos, brinca alegremente com a flor, desta maneira: acaricia-lhe as pétalas, sopra-a, zumbe como uma abelha e dança, cheira-lhe o perfume e finalmente deita-se debaixo dela e dorme envolto numa grande alegria.
A flor pensa: «Parece uma flor.»


Julio Cortázar (1999), «Histórias de Cronópios e de Famas», Histórias de Cronópios e de Famas, Lisboa: Editorial Estampa, p. 136. Trad. Alfacinha da Silva.

sexta-feira, março 11, 2011

Avulsos #38 [não vamos por causa do anis, nem porque tem de ser]

Não vamos por causa do anis, nem porque tem de ser. Já devem ter adivinhado: vamos porque não podemos suportar as formas mais falsas de hipocrisia. A minha prima mais velha encarrega-se de se certificar da natureza das manifestações de pesar, e se é a sério, se se chora porque chorar é a única coisa que resta a esses homens e mulheres entre o cheiro a nardos e café, então ficamos em casa e acompanhamo-los à distância. Quando muito, a minha mãe vai lá um bocadinho e apresenta as condolências em nome da família; não gostamos de nos meter indolentemente no meio desse diálogo com a sombra. Mas se da pausada investigação da minha prima nos vem a suspeita de que num pátio coberto ou numa sala se levantaram os arraiais da mentira, então a família veste os melhores trajitos, espera que o velório comece e vai aparecendo a pouco e pouco mas implacavelmente.


Julio Cortázar (1999), «Comportamento em Velórios», Histórias de Cronópios e de Famas, Lisboa: Editorial Estampa, p. 47. Trad. Alfacinha da Silva.

segunda-feira, março 07, 2011

Avulsos #37

Ou não fossem as redes sociais feitas por pessoas.


Ou não fosse tudo muito bonito no início e não fosse apenas isso que a maioria das pessoas procura. Ou não fosse muito fácil a acomodação, a habituação, e, por consequência, o desinteresse, a falta de esforço para se ser melhor. Ou não fosse muito fácil culpar o outro por todos os males que me acodem, a falta de tempo, a falta de espaço. Faz bem as contas. Entre todas as tuas ocupações e obrigações, quanto tempo e quanto espaço da tua vida cedes tu a esse outro, afinal? A quem atendes tu primeiro?
A desistência é fácil, porque é tão ou mais fácil a ilusão de um novo início.
De repente, somos todos descartáveis, à distância de um clique. Se é isto a liberdade, o que será o vazio?

Avulsos #36

Que uma pessoa se queixe menos não significa que tenha menos motivos de queixa. Por vezes, significa apenas que, perante quem não vê mais longe do que o seu próprio umbigo, o esforço de dizer o desconforto não vale a pena.

domingo, março 06, 2011

Diário #36 [sobre o lado esquerdo]

O coração é uma coisa que dói. E não é um ataque cardíaco.


Como se aguardasse apenas um pretexto para me deixar sozinha. E é, afinal tão fácil deixar-me sozinha. Ou não fosse esse o meu estado natural. Como a tristeza.


E a noite passa sem  quem me embale.

sábado, março 05, 2011

Avulsos #35 [now you don't]

Frank Tuttle (1942), This Gun For Hire



(Da expetativa, à tristeza, à raiva, ao nada, é um instantinho.)

sexta-feira, março 04, 2011

Avulsos #34 [quem não pede não ouve deus]

Há um certo tipo de pessoas que tem sempre muitas coisas para fazer, que se comporta como se andasse sempre a correr de um lado para o outro, que nunca chega a horas. É o trabalho, são os filhos, são as compras, é sabe-se lá mais o quê. Estas pessoas tanto se queixam e tanto se atrasam que acabam, quase sempre, por arranjar quem lhes assuma parte das responsabilidades. E, com isso, estas pessoas deixam de chegar atrasadas e de se queixar do tão atarefadas que vivem? Não. Arranjam mais coisas com que entreterem. E, depois, vemos pessoas que não têm tempo para nada, coitadinhas, que trabalham tanto, coitadinhas, que estão sempre tão cansadas, coitadinhas, vemos essas pessoas dizia, a arranjarem tempo para ocupações lúdicas, enquanto as outras pessoas, que não se queixam tanto nem exibem um ar tão afogueado,  que vêm o seu tempo passar enquanto esperam durante mais um atraso das outras (coitadinhas, com tantas coisas seu cargo), acabam por não conseguir encontrar tempo para dois passos livres de dança. Mas estas não fazem tanto alarde, não é? Portanto, deve estar tudo bem.
 Quem não pede, diz-se, não ouve deus.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Diário #25 [deixar de se esforçar é coisa que se aprende]

Deixar de se esforçar, no fundo, é coisa que ou uma pessoa aprende ou não aprende e, quando aprende, é apenas mais uma perda. Perder a paciência para ceder tempo e espaço, e ir em gestos e escolhas que não seriam os seus se não fosse a vontade de agradar ao outro e, com tal, o agrado do outro, agradar-se a si própria. Aprende-se a não oferecer ao outro o que o outro vai entender como roubo ou, coisa simples, ignorar. Aprende-se, também, que é equívoco esperar magia de quem só nos abraça quando não tem mais com que se entreter e parece nunca ter pensado que abdicar poderá significar oferecer e, com isso, ganhar. Aprende-se a devolver ao outro o seu reflexo, que magia é coisa que se reserva aos outros, e, nos nossos bolsos, afinal, o vazio é, de modo incrível, leve.

domingo, fevereiro 20, 2011

Avulsos #33

A magia é necessária, como qualquer ato de amor. E, como qualquer ato de amor, exige atenção ao outro. E onde houve o esforço do trabalho extra, no outro há apenas a alegria do desejo atendido.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Avulsos #32 [o verdadeiro motivo]

«(...) de todas as coisas, esta era a mais triste, o facto de a vida prosseguir o seu rumo: quando deixamos o nosso amante, a vida dele devia parar, e quando desaparecemos do mundo, então o mundo devia parar também; e a verdade é que nunca pára. E este era o verdadeiro motivo que levava a maior parte das pessoas a levantarem-se de manhã: não porque a sua ausência faria alguma diferença, mas porque não faria nenhuma.»


Truman Capote (2003), «O Furta-Sonhos», A Harpa de Ervas, Lisboa: Relógio d'Água, 172. (Trad. de Paulo Faria.)

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Avulsos #31 [a energia que gastamos a esconder-nos uns dos outros]

«-- Quero dizer -- explicou Charlie Cool -- uma pessoa a quem podemos dizer tudo. Serei um idiota em querer tal coisa? Mas ah, a energia que gastamos a esconder-nos uns dos outros, sempre cheios de medo de sermos identificados. Mais eis-nos aqui, identificados: cinco tontos no alto de uma árvore. É um grande golpe de sorte, desde que saibamos como usá-lo; já não precisamos de nos preocupar com a imagem que damos; somos livres de descobrir quem realmente somos. O segredo está em sabermos que ninguém conseguirá expulsar-nos; é a incerteza acerca de si mesmos que leva os nossos amigos a conluiarem-se para negarem as subtilezas. No passado, uma vez por outra, abri a minha alma a estranhos, homens que saltaram para o cais e se eclipsaram, que saíram na estação seguinte: todos reunidos, talvez eles formassem a tal pessoa única no mundo, mas como reconhecê-la se possui uma dúzia de rostos diferentes e percorre uma centena de ruas separadas? Esta é a minha oportunidade de encontrar esse tal ser humano: é você, Miss Dolly, e tu também, Riley, são todos vocês.»


Truman Capote (2003), A Harpa de Ervas, Lisboa: Relógio d'Água, pp. 60-61. (Trad. de Paulo Faria.)

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Avulsos #30 [um amor assim]

Parece-me que eles se amavam muito, a minha mãe e o meu pai. Ela chorava sempre que ele se fazia à estrada para vender os seus frigoríficos. Quando se casaram, ela tinha dezasseis anos; não chegou a fazer trinta. Na tarde em que ela morreu, o papá, a clamar-lhe o nome em altos brados, arrancou as roupas todas do corpo e pôs-se a correr pelo quintal, nu dos pés à cabeça.


Truman Capote (2003), A Harpa de Ervas, Lisboa: Relógio d'Água.

Avulsos #29 [ordered orange juice for one]



Quantos entre nós se poderiam chamar Augusta?

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Wishlist #9 [bilhetes que uma pessoa gostava de receber]

Com a tua letra


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.



Fernando Assis Pacheco
in A musa irregular, Assírio & Alvim

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Avulsos #28 [a dúvida]

Ou a eliminas ou aprendes a viver com ela. O resto é tempo em que não vives, nem dormes.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Avulsos #27 [quem nunca amou não merece ser amado]

Não se deve confundir cansaço com desistência dos gestos que se perdem no olhar que os detém, a pouco e pouco. Os gestos que pontuam e ritmam o afeto, que atenuam a secura dos dias. A palavra, o gesto, o bilhetinho que nos são devolvidos, devolvendo-nos um reflexo de tolice. Porque a vida não é para arrebatamentos. 
Resiste-se uma, duas, três vezes, mais, muitas mais, mas não se resiste sempre. Chega o dia em que começamos a ser mais comedidos. Não é cansaço, é desistência de criar onde a vida seja menos agreste. Há coisas que uma pessoa não consegue fazer sozinha. Então, prende os gestos. Usa o tempo que poderia ser deles em atividades mais sérias e autocentradas. Guarda as mãos, as carícias, os beijos, as palavras, deixa os dias e o outro entregues à secura de si mesmos. Façam do deserto o que quiserem.
E, então, é apenas a planura e a aridez. É claro, não será o outro a criar os oásis, mesclas de afeto e tolice, que tornam mais apetecível a existência. Porque o arrebatamento é devaneio e tolice, e o que se pretende é sensatez.
E, então, nada disto se parece com uma carta de amor, pois, essas, sabe-se, são ridículas e nada sensatas. Porém, não se deveria também confundir sensatez com insensibilidade.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Aviso à navegação #5 [pavimento em mau estado, siga pelo desvio]

Este blogue é feito de detritos. Não só, mas também. (Como alguém que coleciona coisas antigas só para não se esquecer de quem é.)

Avulsos #26 [é assim uma espécie de prova de afeto]

Diário #24 [ainda o problema da memória]

Rita Redshoes. Dream on girl. Para quê?

Avulsos #25 [até que fura]

O problema de se insistir em dar aos outros o que se tem de melhor é que eles podem não estar minimamente interessados. Não importa se a nossa canção é o que temos de melhor, pode não ser suficientemente boa, e pode haver quem prefira dançar ao som de outra música, o que não é assim tão raro.
O problema é que se insiste. E é o que temos de melhor. E não é o suficiente. E gasta-se com o uso. Com a insistência [não desistir de acreditar]. E era o que tínhamos de melhor (agora as mãos de costura para mais um remendo).
E era, afinal, tanto o tempo em que poderíamos ter optado por um bom livro.

Wishlist #7 [a good book to live in]



Ou, pelo menos, uma história bem contada.

Avulsos #24 [água mole em pedra dura]

Na verdade, vai-se desistindo de cada vez que nos mostram que não vale a pena. Até não haver retorno.

Avulsos #23 [make believe]

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Avulsos #21 [I can wait an year or two, but not one moment more]

Diário #23 [quatro, onze, catorze de janeiro, diziam]

E não. Passares por uma situação mais grave não diminui a gravidade das situações por que entretanto passares, quanto muito lembra-te de que já passaste por pior e aguentaste (da maneira possível mas aguentaste). O que é grave continua a ser grave.
E é irrelevante, tu sabes, terem-te dito que houve mais quem tivesse passado pelo mesmo sem se ter desmoronado como te desmoronaste tu. Sabes muito bem que ninguém mais passou pelo mesmo, nunca na mesma solidão.

Avulsos #20 [todas as cartas de amor são ridículas]

Diário #22 [a ligeireza que teríamos se]

E há essa coisa, a memória, que tão mal distribuída está, tão poucos têm que até mal parece quando nós a temos. 
As palavras, lembrar o tom, a raiva com que foram ditas quando não nos poderíamos sentir mais sós e não havia mais de quem poder esperar companhia. Lembrar o seu conteúdo exato. E, mais tarde, um comportamento como se fosse possível a inocência, como se as palavras nunca tivessem sido proferidas, como se nunca nos tivessem feito tremer, nunca nos tivessem lançado no vazio, reduzindo-nos a uma espécie de inexistência de onde nos reconstruimos, sozinhos. 
E perguntamo-nos se é possível que o outro não se lembre, se o normal seria não nos lembrarmos; ou se as palavras não foram proferidas com a intenção de terem o significado que tinham, se, pura e simplesmente, foram ditas aquelas palavras como o poderiam ter sido quaisquer outras. Mas, se assim foi, então porquê a escolha daquelas palavras em particular e não de outras? Porque não outras que destruissem menos? Não ser por mal não é o mesmo que ser por bem. Ser por leviandade não é o mesmo que ser por bem.
E, então, continuamos a dançar, mas lembramo-nos. Continuamos a dançar, mas não esperamos. E, mesmo que o queiramos, não conseguimos a ligeireza fácil que teríamos se. 


sábado, janeiro 15, 2011

Diário #21 [parece que sim, mas não tem nada a ver com acidentes na faixa de rodagem]

Vejamos: um atropelamento em excesso de velocidade quando o peão está na passadeira não deixa de ser um atropelamento apenas porque o condutor estava, naquele momento, ocupado a pensar noutra coisa. Não importa se o condutor em causa é, em regra, um bom condutor e se foi apenas a urgência de um momento que o alterou, nem os danos sobre o atropelado são menores por esse motivo. O peão é atropelado por desatenção, porque a sua existência não foi sequer reconhecida. Não pode haver pior do que isso. Não ter sido de propósito não é atenuante. Não há pior do que reduzir o atropelado à insignificância do «Ah, estavas aí? Nem te vi.».

Avulsos #19 [There are many ears to please, many people's love to try,]


Quando a música que nos dão até pode ser bonitinha, mas não nos dá vontade de dançar.

domingo, janeiro 09, 2011

Diário #20 [she just went solo]

Há alturas em que tens de escolher entre ajudar a dançar quem está com dificuldades em aguentar o ritmo ou ajudar no barbecue dos donos da festa. E escolhes. E, de vez em quando, alguém se lembrará da escolha que fizeste.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Aviso à navegação #4 [com piso escorregadio aumente a distância de segurança relativamente à viatura da frente]

Este blogue podia ser anónimo, mas não é. Não há aqui qualquer objetivo de se dizer o que não se diria noutro lado, apenas o de se dizer o que só pode ser dito por aqui, porque este meio (media), melhor do que o outros, o permite. Não há aqui nada de secretismo nem de intimidade a ser protegida, que a intimidade está noutro lado. Quem não chegar até mim (também) por outras vias, dificilmente chegará só por aqui. Este blogue é a prova de que estamos longe (se necessidade de prova houver).

ventos

A Beleza e a Tristeza à espera de 2011 A Harpa de Ervas A Hora da Estrela a intimidade das coisas impossíveis a metamorfose é uma coisa muito bonita a morte é uma flor Acqua Across the Universe aviso à navegação avulsos Babooshka Balada do Louco Barbie Girl be careful that's my heart Bessie Smith Billie Holiday blame it on my youth blood makes noise Bob Dylan by myself Carlos de Oliveira Carpenters Cat Power chocolate jesus Clarice Lispector Com a tua letra como se faz a um passarinho Comportamento em Velórios confia no rasto das lágrimas Cristovam Pavia cry if you want to da corda desatenção Diamonds in the Mine diário Dinah Washington distância do perdão do what you gotta do Don DeLillo dos anjos caídos Downhearted Blues dream on girl Duke Ellington e eu que também tenho uns sapatos vermelhos Edward Hopper Elis Regina Elizabeth Bishop Ella Fitzgerald Esperanza Spalding Esther Offarin everyday people Fairport Convention Fats Waller Fernando Assis Pacheco Fernando Pessoa Fiona Apple forever young Frank Sinatra Frank Tuttle get a little give a litte God Will Hard Hearted Hannah he said he couldn't because Here Comes the Sun Histórias de Cronópios e de Famas Holly Cole How I'd love to remain with the silver refrain I told him my dog would'nt run i'd rather be lonely than happy with somebody else I'll take you to see the sunrise and try to catch your ghost I'm everyday people i'm gonna sit right down and write myself a letter if I start to cry Illusions inexistência Insensatez Is Anything Wrong is that all there is isto é muito triste It Don't Mean a Thing (If It Ain't Got That Swing) it may be a week and it may be a month or two It Never Entered My Mind J. D. Salinger Jacinta Jacques Tati jai guru deva om Janis Joplin Joan Baez João Barrento Julio Cortázar just like a woman Just like honey Kate Bush kill them now or later? L'illusioniste Leonard Cohen let's strike up the band Lhasa de Sela like an old fashioned waltz little fly Look what they've done to my song Lotte Lenya love 's a lonely place to be Love Me or Leave Me make it go away make me a present of you Maria Tecce Marlene Dietrich Melanie Safka Miles Davis minha vida meus mortos meus caminhos tortos Morning Sun música My favorite things nada de trágico não vamos por causa do anis nem porque tem de ser Nat King Cole Natal Ney Matogrosso nice work if you can get it Nick Cave and the Bad Seeds Nina Simone Not a Second Time Nove Contos now you don't o busílis O Corpo Enquanto Arte O Furta-Sonhos one art ordered orange juice for one os ventos do norte não movem moinhos Paul Celan Peggy Lee Peter Gunn piece of my heart Pirate Jenny PJ Harvey poema ponto de partida porque nem todos os dias são dias de usar saltos altos pregão de fim de ano Queens of the Stone Age ready to begin again Regina Spektor Rising for the moon Rita Redshoes Sandy Denny Sangue Latino Sarah Vaughan se este baile fosse meu Se Eu Quiser Falar com Deus se fizer um pequeno esforço levanto-me e caminho no ar she just went solo show me that you care Sly and The Family Stone sobre o lado esquerdo solo sossego Stacey Kent strike up the band Suzanne Vega Sylvain Chomet that's all I want from you The Beatles The Jesus and Mary Chain The Mills Brothers This Gun For Hire This Lullaby Time Enough at Last todas as cartas de amor são ridículas Tom Jobim Tom Waits Truman Capote Twillight Zone uma pessoa a quem podemos dizer tudo Veronica Lake vídeo VIrginia Astley want to buy some illusions Where the wilde roses grow who keeps on loving you Who Knows Where the Time Goes why don't you do right wild is the wind William Turner wish Christmas was true wishlist Yasunary Kawabata yeah... those are all very nice things You allways hurt the one you love