Resiste-se uma, duas, três vezes, mais, muitas mais, mas não se resiste sempre. Chega o dia em que começamos a ser mais comedidos. Não é cansaço, é desistência de criar onde a vida seja menos agreste. Há coisas que uma pessoa não consegue fazer sozinha. Então, prende os gestos. Usa o tempo que poderia ser deles em atividades mais sérias e autocentradas. Guarda as mãos, as carícias, os beijos, as palavras, deixa os dias e o outro entregues à secura de si mesmos. Façam do deserto o que quiserem.
E, então, é apenas a planura e a aridez. É claro, não será o outro a criar os oásis, mesclas de afeto e tolice, que tornam mais apetecível a existência. Porque o arrebatamento é devaneio e tolice, e o que se pretende é sensatez.
E, então, nada disto se parece com uma carta de amor, pois, essas, sabe-se, são ridículas e nada sensatas. Porém, não se deveria também confundir sensatez com insensibilidade.

