As palavras, lembrar o tom, a raiva com que foram ditas quando não nos poderíamos sentir mais sós e não havia mais de quem poder esperar companhia. Lembrar o seu conteúdo exato. E, mais tarde, um comportamento como se fosse possível a inocência, como se as palavras nunca tivessem sido proferidas, como se nunca nos tivessem feito tremer, nunca nos tivessem lançado no vazio, reduzindo-nos a uma espécie de inexistência de onde nos reconstruimos, sozinhos.
E perguntamo-nos se é possível que o outro não se lembre, se o normal seria não nos lembrarmos; ou se as palavras não foram proferidas com a intenção de terem o significado que tinham, se, pura e simplesmente, foram ditas aquelas palavras como o poderiam ter sido quaisquer outras. Mas, se assim foi, então porquê a escolha daquelas palavras em particular e não de outras? Porque não outras que destruissem menos? Não ser por mal não é o mesmo que ser por bem. Ser por leviandade não é o mesmo que ser por bem.
E, então, continuamos a dançar, mas lembramo-nos. Continuamos a dançar, mas não esperamos. E, mesmo que o queiramos, não conseguimos a ligeireza fácil que teríamos se.