domingo, março 20, 2011
Avulsos #42
Esta terra é o meu corpo
mutilado, onde os pássaros
não chegam em sossego,
e longe do ócio do sol
sobre as pedras, este corpo
decai distante da carne
demorada e morna das tardes,
mas, fechando os olhos,
é ainda um poço e pinheiros
ou um melro rasando as nêsperas
através das pálpebras e do sal.
quarta-feira, março 16, 2011
Diário #37 [not a second time]
Esperava por ti em todas as horas e, por isso, chegavas sempre um pouco cedo um pouco tarde, e em mim havia a excitação pela surpresa de te ver tão cedo e o desalento pelo tanto que tinhas demorado. Mas tu não o percebias. Ou era como se não o percebesses. E nunca te ocorreu que o tempo certo em que chegavas era eu que o criava.
Avulsos #41 [sossego]
Peace - Burial at Sea 1842
Joseph Mallord William Turner
Diz, era este o sossego
que querias, quando, de todas
as tormentas, era o meu
o único vento que acusavas?
domingo, março 13, 2011
Avulsos #40
Sempre que era obrigada a curvar-se e a procurar alguma coisa nas zonas mais baixas e recônditas do frigorífico soltava um gemido, mas nem sempre, diga-se, gemido esse que se assemelhava ao queixume de toda uma vida. Tinha um corpo demasiado são e elástico para sentir desconforto, e limitava-se a imitar Rey, a identificar-se com ele, a gemer o gemido dele, mas de uma forma tão irrepreensível e intensa que o desconforto passava a ser dela também.
Don DeLillo (2001), O Corpo Enquanto Arte, Lisboa. Relógio d'Água Editores, p. 9. Trad. Paulo Faria.
Don DeLillo (2001), O Corpo Enquanto Arte, Lisboa. Relógio d'Água Editores, p. 9. Trad. Paulo Faria.
Avulsos #39
FLOR E CRONÓPIO
Um cronópio encontra uma flor solitária no meio do campo. Vai para arrancá-la,
mas pensa que é uma crueldade inútil
e põe-se de joelhos, brinca alegremente com a flor, desta maneira: acaricia-lhe as pétalas, sopra-a, zumbe como uma abelha e dança, cheira-lhe o perfume e finalmente deita-se debaixo dela e dorme envolto numa grande alegria.
A flor pensa: «Parece uma flor.»
Julio Cortázar (1999), «Histórias de Cronópios e de Famas», Histórias de Cronópios e de Famas, Lisboa: Editorial Estampa, p. 136. Trad. Alfacinha da Silva.
sexta-feira, março 11, 2011
Avulsos #38 [não vamos por causa do anis, nem porque tem de ser]
Não vamos por causa do anis, nem porque tem de ser. Já devem ter adivinhado: vamos porque não podemos suportar as formas mais falsas de hipocrisia. A minha prima mais velha encarrega-se de se certificar da natureza das manifestações de pesar, e se é a sério, se se chora porque chorar é a única coisa que resta a esses homens e mulheres entre o cheiro a nardos e café, então ficamos em casa e acompanhamo-los à distância. Quando muito, a minha mãe vai lá um bocadinho e apresenta as condolências em nome da família; não gostamos de nos meter indolentemente no meio desse diálogo com a sombra. Mas se da pausada investigação da minha prima nos vem a suspeita de que num pátio coberto ou numa sala se levantaram os arraiais da mentira, então a família veste os melhores trajitos, espera que o velório comece e vai aparecendo a pouco e pouco mas implacavelmente.
Julio Cortázar (1999), «Comportamento em Velórios», Histórias de Cronópios e de Famas, Lisboa: Editorial Estampa, p. 47. Trad. Alfacinha da Silva.
Julio Cortázar (1999), «Comportamento em Velórios», Histórias de Cronópios e de Famas, Lisboa: Editorial Estampa, p. 47. Trad. Alfacinha da Silva.
segunda-feira, março 07, 2011
Avulsos #37
Ou não fossem as redes sociais feitas por pessoas.
Ou não fosse tudo muito bonito no início e não fosse apenas isso que a maioria das pessoas procura. Ou não fosse muito fácil a acomodação, a habituação, e, por consequência, o desinteresse, a falta de esforço para se ser melhor. Ou não fosse muito fácil culpar o outro por todos os males que me acodem, a falta de tempo, a falta de espaço. Faz bem as contas. Entre todas as tuas ocupações e obrigações, quanto tempo e quanto espaço da tua vida cedes tu a esse outro, afinal? A quem atendes tu primeiro?
A desistência é fácil, porque é tão ou mais fácil a ilusão de um novo início.
De repente, somos todos descartáveis, à distância de um clique. Se é isto a liberdade, o que será o vazio?
Ou não fosse tudo muito bonito no início e não fosse apenas isso que a maioria das pessoas procura. Ou não fosse muito fácil a acomodação, a habituação, e, por consequência, o desinteresse, a falta de esforço para se ser melhor. Ou não fosse muito fácil culpar o outro por todos os males que me acodem, a falta de tempo, a falta de espaço. Faz bem as contas. Entre todas as tuas ocupações e obrigações, quanto tempo e quanto espaço da tua vida cedes tu a esse outro, afinal? A quem atendes tu primeiro?
A desistência é fácil, porque é tão ou mais fácil a ilusão de um novo início.
De repente, somos todos descartáveis, à distância de um clique. Se é isto a liberdade, o que será o vazio?
Avulsos #36
Que uma pessoa se queixe menos não significa que tenha menos motivos de queixa. Por vezes, significa apenas que, perante quem não vê mais longe do que o seu próprio umbigo, o esforço de dizer o desconforto não vale a pena.
domingo, março 06, 2011
Diário #36 [sobre o lado esquerdo]
O coração é uma coisa que dói. E não é um ataque cardíaco.
Como se aguardasse apenas um pretexto para me deixar sozinha. E é, afinal tão fácil deixar-me sozinha. Ou não fosse esse o meu estado natural. Como a tristeza.
E a noite passa sem quem me embale.
Como se aguardasse apenas um pretexto para me deixar sozinha. E é, afinal tão fácil deixar-me sozinha. Ou não fosse esse o meu estado natural. Como a tristeza.
E a noite passa sem quem me embale.
sábado, março 05, 2011
Avulsos #35 [now you don't]
Frank Tuttle (1942), This Gun For Hire
(Da expetativa, à tristeza, à raiva, ao nada, é um instantinho.)
sexta-feira, março 04, 2011
Avulsos #34 [quem não pede não ouve deus]
Há um certo tipo de pessoas que tem sempre muitas coisas para fazer, que se comporta como se andasse sempre a correr de um lado para o outro, que nunca chega a horas. É o trabalho, são os filhos, são as compras, é sabe-se lá mais o quê. Estas pessoas tanto se queixam e tanto se atrasam que acabam, quase sempre, por arranjar quem lhes assuma parte das responsabilidades. E, com isso, estas pessoas deixam de chegar atrasadas e de se queixar do tão atarefadas que vivem? Não. Arranjam mais coisas com que entreterem. E, depois, vemos pessoas que não têm tempo para nada, coitadinhas, que trabalham tanto, coitadinhas, que estão sempre tão cansadas, coitadinhas, vemos essas pessoas dizia, a arranjarem tempo para ocupações lúdicas, enquanto as outras pessoas, que não se queixam tanto nem exibem um ar tão afogueado, que vêm o seu tempo passar enquanto esperam durante mais um atraso das outras (coitadinhas, com tantas coisas seu cargo), acabam por não conseguir encontrar tempo para dois passos livres de dança. Mas estas não fazem tanto alarde, não é? Portanto, deve estar tudo bem.
Quem não pede, diz-se, não ouve deus.
Quem não pede, diz-se, não ouve deus.
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