quarta-feira, julho 27, 2011

Disse-me que estou muito bem para quem passou pelo que passei. Pergunto-me o que teria eu a ganhar com a exibição do corpo decomposto. 2000$00 se passasse pela casa partida?

segunda-feira, julho 25, 2011

Ou: só escrevo para depois poder dormir.
Uma pessoa tende a tentar não ceder, resistir, continuar um pouco mais. As outras pessoas tendem a tentar que uma pessoa não ceda, que resista, que continue um pouco mais. Para não se mostrar fraca, para não desapontar os outros, por orgulho?, uma pessoa não cede, resiste, continua um pouco mais. Isto só pode fazer-te bem ou passando esta noite, amanhã estás melhor. Depois, se caso disso for, vai-se ter às urgências, nada de extraordinário, uma pessoa tenta não ceder, resiste, aguenta um pouco mais, e a oxitocina, não sei se sabes, é protocolo.
Sobretudo, é preciso não dar livre curso ao pensamento. Manter os olhos abertos, focar a luz da rua a entrar por entre as frestas dos estores, prestar atenção às sombras através do cortinado, escutar atentamente os carros quando passam e demais ruídos que se erguem da rua, deixar que a noite se povoe de objectos estranhos e avance, enquanto manténs os olhos e os ouvidos abertos. Sobretudo, é preciso não deixar livre curso ao pensamento. Que o sono, quando vier, te abata, veloz, sem o entretanto em que, liberto dos constrangimentos do corpo, o pensamento flui para onde tu nada podes. E, se te vires demasiado só dentro da batalha, levanta-te da cama, enxuga os olhos, e escreve.
Pergunta-te se tens escrito, porque os escritores, quando se tem uma vocação...
Apetece-te mandá-lo dar uma volta. Ou mesmo só uma ida. A tua vocação é perder. Escrever, apenas um dano colateral.

domingo, julho 24, 2011

Pura falta de jeito, talvez. Qualquer coisa que se está sempre a perder. Como se a vida de uma pessoa não fosse mais do que o tempo, os móveis, os electrodomésticos e os animais que sobram da vida dos outros. E, se calhar, não é.
Gostava que me ouvisses quando estou calada. Quando, depois das palavras e dos esforços, nenhuma palavra mais. Quando sentir no meu corpo e na minha cabeça é demasiado difícil para que alguma palavra resista, e cair nos teus braços durante sete dias seguidos é demasiado simples e demasiado impossível. E o que sobra dos nossos dias parece tão pouco para repousarmos. Gostava que me ouvisses quando estou calada, que viesses ao meu encontro quando estou calada, porque nessas alturas tudo em mim é demasiado difícil para sobreviver. Mas, sim, há que pôr em perspectiva. A tragédia no Corno de África é mais grave.

sexta-feira, julho 22, 2011

Que o que importa, não é o destino, mas a viagem. E quando tudo o que queres é um rio de frente para o qual te possas sentar? E talvez o vento a soprar no cabelo. Quando tudo o que queres é o silêncio de um rio e tudo o que se interpõe te impede de o alcançar? A luz a fintar-te os olhos e as pessoas a exigirem-te o esforço de as ignorares. Têm sido tantas as vezes em que tens cruzado com o Gonçalo M. Tavares nestas ruas, que ele também já te olha como se te conhecesse. Ficas a pensar que há muito que não lês um livro dele, e também isso te impede de chegar ao rio, quando já tens tanto a tomar-te o pensamento. Uma velha anda de mão estendida ao longo do passeio enquanto os outros comem gelados nas esplanadas. Há quem te dê um papel a publicitar qualquer coisa que deixas no próximo caixote do lixo. No interior da estação de metro, reparas noutra velha, tão bem cuidada está que é uma senhora idosa, que fala sozinha, hesita, procura orientar-se. As adolescentes exibem as pernas da moda, e é quase obsceno. Nas escadas para o cais do metro precisas de parar antes que os degraus voltem a mexer. Exausta, e o rio fica ainda demasiado longe. O caminho de volta é longo e demorado. As pessoas ficam tão feias vestidas de saldos e os trapos que compram nem têm nada a ver com o assunto. Querias o rio, mas agora o que te falta é a casa e fechar os olhos. E um rio dentro.
Decerto o corpo tem razões que a medicina desconhece. Como pode alguém chegar à vida sem ter onde dormir? And when you left I'd only began this lullabye.
O corpo que, por ser o meu e o teu, era outro: seria preciso dizer-te o corpo inteiro para que o entendesses e, ainda assim, talvez não bastasse. Ou só: o corpo, matéria que se decompõe.

quarta-feira, julho 20, 2011

Feitas as contas aos dias, o que sobra é pouco mais do que nada. Diz que lá fora há um mundo cheio do que só pela graça de existir nos põe como finos. Mas eu preciso que primeiro os meus filhos durmam em paz.

terça-feira, julho 19, 2011

Mas, repara: foi-se a ameaça do que te interrompesse o sono, te roubasse os planos, te impedisse as viagens.
Sim. Mas no lugar disso não há nada. Nem mesmo a liberdade que já não havia antes.
Dito de outro modo: a questão não é haver ou não alternativa para um dado medicamento; a questão é não haver alternativa para a dor, por mais que se queira encher o peito e cantar, e não haver qualquer lirismo nisso.

minha vida, meus mortos

Lembro-me das unhas dela, a cor das unhas dela, impecavelmente pintadas, dentro das luvas de látex, dentro de mim. Lembro-me dos olhos dela, que poderiam ser os meus olhos a serem os olhos dela, momentos antes de terminar o que não termina nunca. Depois, penso pelos frutos, conhecereis a árvore. E, depois, ainda os meus filhos são demasiado perfeitos para este mundo. E, depois, ainda claro, cada um pensa o que quer.

domingo, julho 17, 2011

Abençoados os que dormem quando os chamam. Give me more than one caress.

Não deixar que a música cesse, que algo de terrível pode vir. Não deixar que a música cesse, que a insónia é um bicho sedento cujas veias não devem ser percorridas em silêncio. Que o silêncio se torna grito e sofreguidão em tudo o que é carne, e o corpo assim menos sossega. Não deixar que a música cesse. Até que o corpo não seja mais do que animal vencido.

sábado, julho 16, 2011

Faz-se das tripas coração. Um movimento após o outro, o mais devagar possível, embora tentando não perder o ritmo e o rumo. Onde estou? Onde estás? É inevitável. Vais sempre um pouco mais depressa e eu, apetece deixar-te ir, sem arriscar o esforço de te acompanhar, sem ousar pedir que abrandes o passo. E, metáfora ou não, imediatamente vêem à mente o esforço de caminhadas anteriores e um sentimento de culpa por assim talvez ter determinado a perda. Mas misturo assuntos. Escrevo para mim só, não espero que ninguém mais entenda. Ergo paredes que me amparem, havendo necessidade. O que eu queria dizer é que, fazendo das tripas coração, não deve surpreender que depois mal funcione o organismo.
É cruel incentivar quem tem uma perna partida a dar um passeio pelo campo. É ainda mais cruel, quando se aponta a perna engessada e se diz que assim nos custa caminhar, olharem-nos como se se tratasse de uma simples recusa em participar do prazer do outro.
Cuidaram-me como uma planta, amaram-me como a uma planta. Água a tempo certo e o melhor sítio da casa para receber o sol. Mas eu não era uma planta.
O que é que se faz quando se começa a falar do que nos entristece a alguém que não se mostra minimamente interessado? Calamo-nos. (Que não esteja interessado na coisa em si, entende-se. Que não se mostre minimamente receptivo a que continuemos a falar e a aliviarmo-nos do assunto, já custa mais a engolir, embora também se entenda.)

quinta-feira, julho 14, 2011

Na verdade, ninguém pergunta. Pensas no corte e na cor das unhas, na maneira como esta blusa diz com aquelas calças, na leitura de um livro, nos quadros de Hieronymous Bosch. Estás porreira. Não há o que perguntar. Ninguém. E é melhor assim. Dispensa-se a oferta de consolo quando do que se precisa é do próprio consolo sem pré-requisito. Uma presença sossegada.
E então alguém pergunta como é possível, apesar do que, continuares a pensar no corte e na cor das unhas, na maneira como esta blusa diz com aquelas calças, na leitura de um livro ou nos quadros de Hieronymous Bosch, apesar do que, como é possível não estares de rastos. E tu respondes, ou não, sufocas na resposta só: não é. E, por dentro, partes(-te) a cantar.

terça-feira, julho 12, 2011

Ridículo o estoicismo auto-proclamado de algumas pessoas. Na sua boca, estão sempre de pé. Mais do que as árvores, porque até estas reconhecem a sujeição a elementos mais fortes. Algumas pessoas não. Na sua boca nunca falham. Nem em gestos, nem em palavras. Nunca. Não deixam coisas por fazer. Não faltam ao trabalho. Não ficam, mais do que isso, não podem ficar doentes. Ridículo. Ou não sabem elas que o sangue faz barulho? Que momentos há em que é mesmo preciso fechar todas as janelas, deixar de fora todos os sons, descer as pálpebras por um pouco? Ridículo. E, a ser verdade, duvido de que estejam vivas.

segunda-feira, julho 11, 2011

Disse-me que a vida era tão ingrata. E, surpresa minha, não me pareceu um lamento. Uma constatação, simples, como quem diz isto é verde, aquilo é azul, e sabe que nada pode fazer para o alterar. Não encontrei o que lhe dizer para além de pois é. Pois é, isto é verde, aquilo é azul. A vida é tão ingrata. A vida é tão qualquer adjectivo que lhe queiramos pôr dentro. E estará sempre bem.

domingo, julho 10, 2011

Devagar (mas sempre demasiado depressa), o corpo volta a ser teu. Sem as restrições que já tinhas decorado. Depressa (mas sempre demasiado devagar). Liberto, sem cuidados, breve até mais ágil, o corpo volta a ser teu. Difícil agora é perceber o que fazer com ele. Blood makes noise.
Quando me atendeu a chamada estava a chorar. Foi pouco o que consegui sentir. É triste. Ia à procura de consolo, não tinha propriamente consolo para lhe dar. O vazio. Queria falar-lhe das dores de cabeça, do cansaço permanente, de um certo mal-estar digestivo e, com isso, tentar aliviar pelo menos o que pudesse ser psicossomático. Ela estava a chorar. A lamentar-se. A pedir desculpa. E eu vi tudo o que estava por detrás daquilo e não consegui dar-lhe nada. Nem sequer consegui chorar com ela. Hei de chorar noutra altura, sozinha. Ou não. Chorar também cansa.

blood makes noise


Não adianta. Nada no mundo vai suspender-se ou acontecer mais devagar, apenas porque tu, pelo menos por momentos, assim o preferirias. Não acontece. As coisas sucedem-se num ritmo que não é o teu e que, sabes, não adianta esforçares-te por acompanhar. Até porque, antes de mais, é o próprio corpo que se recusa. A fadiga. Uma dor mais ou menos forte agora, outra mais tarde. A temperatura que vai subindo. Não adianta. Quando mais não seja, porque tens um corpo que não está preparado. Não adianta. Deixar que suceda o que tu não podes, e, ainda que pudesses, não sabes se quererias, abrandar. Deixá-los. Mais do que inevitável, é necessário que a alegria continue. E isso é bom. Apenas que não te empurrem para o que tu agora não consegues. E, se ainda houver quem, que te ajude a adormecer.

minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos

É verdade. Quando se passa uma segunda vez por uma situação lixada há muita coisa que já se conhece. É como rever um mau filme, sendo que não se é parte da audiência, mas sim do elenco. Não me parece que se possa dizer que é menos mau, antes, há como que uma adequação das expectativas ao que o conjunto tem para oferecer. Espera-se menos. Logo, o hiato entre o que espera e o que se obtém é menor. No entanto, isto não faz que a situação lixada pela qual se passa uma segunda vez seja menos lixada do que antes. Uma pessoa é que já está mais lixada. É diferente.

sábado, julho 09, 2011

Se te fazem uma pergunta, tens o direito de responder. Se alguém te mostra que se importa, tens o direito de o viver. Tens direito a toda a empatia e afecto que alguém tenha para ti. É simples.

Até podes pensar que foi o pânico de te ver a desmoronar frente à pergunta que o fez fazer a piada mais tonta quando tão pouco precisavas dela. Isso, até podes compreender. Mas não sabes se foi isso. Sabes que a piada teve o efeito imediato de ridicularizar a tua dor, e cortar o acesso a algo que te estava a ser oferecido e de que, de algum modo, precisavas.

E depois uma espécie de silêncio ostensivo e a retirada dos seus gestos de afecto. O castigo por teres apontado onde as palavras doeram? Ou pura e simplesmente o desnorte por te ter magoado com o que tinha talvez apenas a intenção de evitar que te magoasses mais? Não sabes. O silêncio não te ajuda a perceber. Será assim tão difícil dominarmos a arte da fala?

Tu até poderias entender. Que o que te magoou não tivera essa intenção. Que fora um gesto falhado. Mas não o sabes. Não te é dito. Não te é mostrado. E falta a coragem. E ficas só tu a tentar segurar o mundo. O teu. Jai guru deva om.
Nem de quem esteve presente e assistiu a tudo aquilo por que passaste podes esperar que saiba o que é o cansaço, o vazio e mesmo a dor que fica depois. Ainda que, na verdade, a perda não devesse ser considerada apenas tua, mas vossa. Não adianta. Não podes.

Assegurar o mínimo, talvez. Ainda que compreendendo que para o outro, por todos os motivos, tudo seja mais simples, e não esperar mais, porque já sabes. Mas assegurar o mínimo. Que piadas fáceis sobre o que te dói não são bem-vindas. Não precisam de chorar contigo, mas não esperem agora que te rias ou acompanhes o riso dos outros sobre o que te dói. Porque isso dói mais.

Cada um tem o que merece, tu sabes. E não duvidas que tenhas exactamente o que mereces. Mas, jai guru deva om, que não te abanem aí, onde tudo é tão frágil.

sexta-feira, julho 08, 2011

Jai Guru Deva Om

Que nada me estremeça. Que nada me apresse. Que nada me chame mais alto do que eu estou preparada para ouvir. Mais do que um desejo, uma declaração de intenções. Não permitir que.



Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
They slither while they pass, they slip away across the universe
Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my openmind,
Possessing and caressing me.

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

Images of broken light which dance before me like a million eyes,
That call me on and on across the universe,
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box they
Tumble blindly as they make their way
Across the universe

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

Sounds of laughter shades of earth are ringing
Through my open views inviting and inciting me
Limitless undying love which shines around me like a
Million suns, it calls me on and on
Across the universe

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

E então o silêncio, porque qualquer palavra será desencontro.

Então chorar, se as lágrimas caem, sem mais. Qualquer que seja o motivo aparente, esse será apenas o pretexto. Na verdade, choras porque és, e o que sentes não pode dissociar-se do que és. Nada do que possas dizer conseguirá explicar, fazer com que de alguma maneira a tua tristeza alcance o outro. Podes agarrar-lhe a mão enquanto o corpo permanece deitado a teu lado, mas é intransponível. Não poderás nunca fazer-lhe chegar a tua tristeza, porque o outro é o que é e não o que tu és. E então o silêncio, porque qualquer palavra será desencontro.


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus...
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração...
E se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Eu tenho que subir aos céus
Sem cordas p'ra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar!
Se eu quiser falar com Deus!

O ponto de partida é sempre aquele onde estás.


Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

ventos

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